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Preconceito

“Eu precisava ser eu mesma, ou aquela pessoa morreria antes de ser feliz”, diz Tifanny

Única mulher trans da Superliga, jogadora do Osasco abre o coração sobre as vivências no esporte, preconceitos que sofre e ambições em sua carreira no vôlei

Desde que os holofotes foram ao encontro de Tifanny Abreu, sua visibilidade fez crescer o debate sobre mulheres trans no esporte feminino, no Brasil e no mundo. E devido a importância do tema, em diversos setores da sociedade, para que seja sempre perceptível, presente e debatido, essa entrevista se fez necessária.

Tifanny não é apenas a precursora de uma comunidade trans que busca mais representatividade no ambiente esportivo. É muito mais. Tifanny representa uma mulher trans que alcança seus sonhos e se torna tudo o que sempre almejou – mesmo numa sociedade em que poucas de nós têm oportunidades. Ela é pioneira não apenas como trans no vôlei, mas também entre as futuras pessoas trans advogadas, médicas, engenheiras, cantoras, jornalistas e outras que ocuparão os espaços na sociedade com mais naturalidade. Como eu, Marcela Maeve Marques, estagiária e primeira mulher trans a trabalhar no esporte da Globo.

Em nossa conversa, Tifanny foi sincera sobre sua transição, desde os medos que sentiu até os efeitos dos hormônios no próprio corpo. Desabafou sobre declarações transfóbicas e também falou sobre as suas ambições profissionais.

Tifanny iniciou a transição de gênero em 2015, com 30 anos. Chegou a abandonar a carreira (no vôlei), assim como muitas de nós. Ela não imaginava que poderia exercer o que tanto ama sendo a mulher que sempre sonhou, e que sempre se sentiu. Jogou pelo Palmi, da Itália, até chegar à Superliga em 2017, com a camisa do Bauru. Em sua primeira temporada pelo Osasco, a oposta foi uma das principais jogadoras na conquista do Campeonato Paulista em 2021Hoje, aos 37 anos, é a principal pontuadora da atual Superliga feminina, com 225 pontos em 38 sets jogados, com média de 5,92 pontos a cada parcial. Nenhuma outra jogadora tem média melhor até agora.

– As pessoas gostam de nos perguntar quando descobrimos que somos trans, mas no fundo sempre sabemos. Quando foi o momento que você olhou e percebeu que não dava mais para lutar contra? Que era a hora de ser quem você realmente é?
– Olha, desde novinha eu já sabia que eu era menina, eu só não entendia o que havia de errado. Quando eu fui jogar fora pela primeira vez, a depressão veio muito forte, era algo diferente, a depressão começou a me matar, eu não sabia o porquê. Eu fui entender que eu precisava colocar a Tifanny para fora, ou aquela pessoa morreria antes de ser feliz, então eu escolhi ser feliz, ser eu mesma; eu só não imaginava que eu ainda poderia ser eu mesma praticando o esporte que eu tanto amava, fazendo o meu trabalho. E hoje estou aqui, muito feliz, podendo dar essa entrevista e falando que eu venci, sim! Venci o preconceito! Venci a vida! Venci a depressão! Hoje sou uma mulher guerreira, que persegue seus sonhos sempre!

– Quais as maiores diferenças que você sentiu depois que você passou a tomar os hormônios? O que mudou na Tifanny conforme eles agiam?
– A gente não sabe realmente o que o hormônio faz com nosso corpo antes de usá-lo, então fica o pensamento “será que a gente vai ficar só bonita?”. Algumas meninas pensam que precisam do hormônio pelo padrão estático, mas o hormônio vai mudar completamente o seu corpo, começando pela sua força física. Para ser atleta, é preciso usar também o bloqueador de testosterona, que reduz o nível no organismo, é quase como uma cirurgia, tem pessoas que acreditam que seja fácil, mas o bloqueador é um pré-cirúrgico, uma cirurgia química, o que faz com que você tenha níveis de testosterona que te permitem competir. Com o bloqueador, o estradiol vai agir mais ainda no corpo, deixando formas mais femininas.

ENTENDA AQUI: O estradiol é um hormônio que é usado para tratamentos de sintomas de deficiência do estrogênio, o hormônio feminino. O bloqueador de testosterona serve para restringir a quantidade do hormônio masculino no corpo

– Há pessoas que defendem competições apenas com pessoas trans. Saindo até do esporte de alto rendimento e enxergando como ferramenta social, o quanto essa exclusão e essa separação podem ser maléficas para a sociedade?
– Competição somente para trans é o preconceito máximo. Primeiramente: o esporte, com homens e mulheres cis, já não tem a visibilidade que deveríamos ter, nosso governo já não dá essa visibilidade, o conforto que o atleta deveria ter. O atleta, seja cis, seja trans, ele não se aposenta, nós não temos uma expectativa financeira tão grande, se você não conseguir juntar um “pezinho de meia” agora, você não consegue viver depois do esporte. Até no futebol, por exemplo, se você for um profissional de elite, tudo bem, mas a maioria dos jogadores de futebol ganha menos de 2 mil reais também. Se um esporte cis já não tem valorização no país, como criaremos um esporte trans, onde a população mundial é menor que 1%? Nós temos uma atleta trans profissional, que sou eu, talvez tenhamos a Mabelly, no ano que vem, como que criaremos uma competição se nem temos tantos atletas trans? E existem regras, falar de pessoas trans competindo à parte, você falará de tirar a pessoa trans da visibilidade, pois quem defende isso sabe que a visibilidade trans no esporte seria reduzida a zero.

ENTENDA AQUI: Homens e mulheres cis se apresentam ao mundo e se identificam com seus gêneros biológicos. Saiba mais sobre a diferença entre identidade de gênero e orientação sexual aqui. O Curitiba tentou inscrever Mabelly, que seria a segunda jogadora trans na Superliga, mas a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV) informou que a atleta não apresentou comprovação do nível de testosterona inferior a 10 nanomol por litro de sangue por pelo menos 12 meses antes de competir na Superliga feminina. Essa é a exigência para liberar uma atleta trans. Tifanny registra em torno de 0,2 nanomol de testosterona por litro de sangue, o que a capacita para competir.

– Você citou o caso da Mabelly, outra jogadora trans, que não conseguiu jogar na Superliga esta temporada. Mas eu gostaria de saber como a primeira mulher trans a competir no país vê a chegada de novas jogadoras trans? O Brasil está preparado para mais atletas trans não só no vôlei, mas em outros esportes?
– Eu acredito que, pouco a pouco, a gente está caminhando, em passinhos de formiga, mas estamos conseguindo nossos espaços. Ainda não é fácil. Tivemos o caso da Mabelly, que seria a segunda a participar das competições profissionais, de mais alto nível no país; infelizmente ela não entregou todos os requisitos pedidos pelo pela federação, mas espero que em breve, agora que ela sabe o que necessita, espero que ano que vem ela possa participar. Eu sonho com um dia que nós, mulheres trans, sejamos conhecidas apenas como atletas, não como atletas trans. Nós não falamos “atletas negras”, “atletas brancas” ou “loiras”, não, falamos “atletas”, então tenho sonho que as trans tenham seu espaço, por serem atletas. O fardo de ser a primeira trans, que muitas pessoas brigam, eu já carrego comigo, eu espero que minhas irmãs, do futuro, estejam no esporte por seu mérito.

– Como você absorve declarações como a do Maurício Souza, da Tandara e outras pessoas? Até onde vai a liberdade de expressão? Até que ponto ela justifica LGBTfobia?
– Liberdade de expressão não pode ser confundida com ataques, que façam que outras pessoas, por gênero, etnia, por cor de pele, sejam mortas, percam o emprego, sejam menosprezadas no dia a dia. A liberdade de expressão é não concordar. A Tandara falou “eu não concordo, mas eu respeito e aceito”, ela usou a liberdade de expressão, ela não acusou, ela não concorda, mas respeitou, o que o correto. Já o Maurício, não; ele acusa LGBT, ele faz piadas, elas tem gestos preconceituosos que atingem a sociedade, a partir do momento que qualquer pessoa trans tem medo de sair na rua, em função dessas piadinhas de mal gosto, fazendo com que nossas crianças tirem suas próprias vidas, por medo ou por brincadeiras, na escola ou na internet, por exemplo. Algumas pessoas acreditam que a internet é terra sem lei, mas o crime (na internet) é dobrado. Temos que saber entender as pessoas e que esse tipo de brincadeira não é liberdade de expressão, é crime! LGBTfobia é crime e quem comete, tem que pagar!

ENTENDA AQUI: Em outubro deste ano, Tandara disse, novamente, ser contrária à participação de trans na Superliga feminina por considerar algo injusto, mas disse respeitar Tifanny. As duas são do mesmo time, o Osasco, mas ainda não jogaram juntas. Tandara segue afastada depois do resultado positivo de doping, em teste feito antes das Olimpíadas mas revelado durante os Jogos de Tóquio, em agosto. Também em outubro, Maurício Souza, campeão olímpico na Rio 2016, foi demitido do Minas após publicação de teor homofóbico em sua rede social.

– Você tem 37 anos, talvez não seja o grande momento para se falar em seleção brasileira, mas você chegou a flertar com a seleção. Quais suas grandes ambições no esporte atualmente? Onde você ainda pretende chegar em sua carreira?
– Minhas ambições são estar sempre melhor e dar o melhor para o meu time, fazer o melhor dentro de quadra. Se eu te falar que não sonho com a seleção, eu estaria mentindo, temos jogadores de 39, 40 anos, que disputaram as últimas Olimpíadas e que representaram muito bem, como a Carol Gattaz, por exemplo, que é maravilhosa. O Zé falava que não me convocava, pois havia regras das federações internacionais que faziam estudos sobre mulheres trans. Hoje em dia, eu estou apta em todos os estudos realizados e posso atuar pela seleção. Vamos ver se o Zé, algum dia, vai me chamar ou não, mas, independentemente disso, eu estarei sempre dando o meu melhor. Vamos ver se será da vontade de Deus, se não for, estarei feliz e lutando para que outra menina trans possa chegar lá.

ENTENDA AQUI:Em entrevista em 2020, o técnico da seleção feminina de vôlei, José Roberto Guimarães, disse que Tifanny tinha capacidade técnica para ser convocada para a seleção. Mas ele esperava definições mais claras da Federação Internacional de Vôlei (FIVB) sobre a possibilidade de poder convocá-la. Em novembro deste ano, o Comitê Olímpico Internacional (COI), divulgou nova diretriz para inclusão e elegibilidade de atletas transgêneros e intersexuais. Na prática, atribuiu a cada federação esportiva adotar suas regras. O nível de testosterona segue sendo o elemento fundamental para a liberação.

 Você acha que isso vai acontecer? Que um dia vamos ter uma mulher trans jogando pela seleção?
– Antes de termos a Marta, a melhor do mundo, tivemos outras jogadoras que abriram as portas para ela, e isso fez com que ela não menosprezasse ou desmerecesse o trabalho de outras no passado. Se eu estou aqui, é porque tivemos outras mulheres trans e travestis que lutaram pela nossa existência e outras que já não estão aqui porque deram suas vidas pela liberdade nossa de estar aqui hoje. Então se existe a Tifanny hoje, é para que tenhamos outras Tifannys e outras Mabellys, outras meninas que terão essa oportunidade e eu estou muito feliz por poder fazer parte disso, mesmo se eu não estiver lá, pois estou abrindo portas.

(GE GLOBO)

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